http://www.thedailybeast.com/articles/2013/11/24/an-oral-history-of-mao-s-greatest-crime.html
Observatório das Multidões é uma iniciativa do Projeto Observatório da Universidade voltada para a análise política, social e econômica.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
PARAÍSO PERDIDO OU COMO NASCEM AS UTOPIAS
PARAÍSO PERDIDO OU COMO NASCEM AS UTOPIAS
Fernando Portela Câmara
Vivemos um momento em nosso país que quebra nossa tradição
liberal onde valores estranhos e totalitários são agora impostos,
frequentemente por radicalismos ideológicos de personalidades incompletas, sem
suficiente vivencia reflexiva sobre a natureza do ser humano e da sociedade
humana. A longa tradição grega da democracia, do debate aberto disciplinado
pela lógica e pela busca do consenso, da tolerância das opiniões e
flexibilização da postura para evitar a radicalização e a tirania inevitável
que ela impõe, são ardilosamente desconstruídos para dar lugar ao tirano
travestido em libertador, pai da nação. Não faltam exemplos históricos e contemporâneos.
Vemos hoje uma América Latina controlada por utopias radicais
abraçadas por personalidades cuja agenda promove o franco desafio à sociedade
que julgam tê-los discriminados. Disfarçado em motes tais como “amor aos
pobres” e “justiça social”, oculta-se um messianismo perverso que busca
compensar o imenso narcisismo e a autoadoração que tanto buscaram em suas
fantasias psicóticas. Rejeitam a “sociedade injusta”, quando na verdade
escondem cuidadosamente o ódio acalentado na frustração de terem seus instintos
egocêntricos e impulsos sociopáticos reprimidos
por seus educadores, na juventude. São figuras sem superego, narcísicas, que
disfarçam sob o senso de justiça, o ódio por tudo e por todos que cruzam seus
caminhos. Ardilosos, manipulam as massas, conhecem as fraquezas e os desejos
secretos que acalentam e sugerem.
Tais personalidades não introjetam princípios éticos e
morais, não assimilam valores sociais e assim desprezam a sociedade e as
pessoas. Tornaram-se perversos, oportunistas, parasitas, dissimuladores,
manipuladores, sabem usar a intimidação como instrumento de domínio, reconhece
a fraqueza do outro e a usa em seu benefício, sabem como ninguém se colocar
como vítimas, convencendo juízes e pessoas, liderando a quem escarnece.
Esse desenvolvimento se estabelece plena e irreversivelmente
na adolescência. Exacerba-se naquelas personalidades que não tiveram suficiente
educação e controle familiar, crescendo sem limites e por vontade própria.
Sociedades libertinas ou excessivamente liberais, como a nossa, em que a
punição é rejeitada como um dos vários recursos de socialização e o desprezo da
autoridade social e pelos valores da lei e da ordem, são o ambiente ideal para
o desenvolvimento dessas personalidades. É comum em tais sociedades atribuir atitudes
e comportamentos desviantes a fatores socioeconômicos e nessa linha de
pensamento criam mecanismos de afrouxamento da ordem em nome de uma inaceitável
antijuricidade natural dos supostamente “vitimados por uma sociedade injusta”.
Qualquer que seja o argumento, numa sociedade sadia não se isenta a
responsabilidade social e penal do individuo, pois o comportamento sociopático
não é doenças mentais, mas distorções no desenvolvimento do caráter. Nas
sociedades doentes tais indivíduos tornam-se até mesmo objeto de admiração e de
exemplo, subvertendo a índole de gerações.
Enfim, esses “salvadores da pátria” são personagens de suas
fantasias narcísicas, e não raro procuram subverter a lógica aos seus próprios
fins usando a persuasão longamente treinada. Aos poucos se tornam missionários
da “nova verdade”, e não raro são true
believers, que fazem da falácia da falsa alternativa uma bandeira
ideológica: todos os argumentos que contrariam a sua verdade são falsos, e os
adversários são por isso perigosos, precisam ser vigiados, ostracizados,
perseguidos.
Não por coincidência, essas personalidades ao assumirem
lideranças tem por prioridade ideológica a defesa e proteção de minorias
violentas, sob o argumento de que a sociedade, mediante regras e restrições,
impediram-nos de ter “a liberdade necessária a realização de suas livres
manifestações”. Isso era emblemático na figura de Hitler, e serve de emblema a
tantos tiranetes que ora pululam no mundo, simbolizado nos radicais alemães
daquela época que tinham por lema Wir vom
System krankgemachte Typen (“nós, a quem a Sociedade Estabelecida tornou
doentes”).
Toda essa ideologia nascida da distorção tem em Russeau, seu
grande ideólogo e inspirador. Que La
nature a fait l´homme heureux et bon, mais que La société le deprave et le rend
misérable, eis o libelo revolucionário que emoldura sua obra Émile. Do sucesso dessa sociologia,
elevada às alturas pelos revolucionários franceses, nasceu o brado retumbante
que deu à sociopatia seu status utilitário, “todos nós nascemos bons e felizes,
mas se sou mau e perverso a culpa é da sociedade que me fez assim”. Eis a
desculpa repetida pelos psicopatas e oportunistas aos quatro ventos, peritos
que são em culpar a tudo e a todos pelos seus maus atos, pois a deficiência
moral os impede de assumirem qualquer responsabilidade. Robert Audrey pontuou
bem essa distorção perpetuada como jargão de políticas “revolucionárias” ao
identificar nesse pensamento estatizado o início da Era do Álibi:
Demonstrando maior simpatia pelo violador que pelo violado, preparou-nos
com elegância para a máxima ruína na medida em que nos deparemos com um futuro
de máxima desordem social. Uma filosofia que … nos induziu a crer que toda
falta humana deve repousar sobre ombros alheios; que a responsabilidade por todo
comportamento nocivo à sociedade deve invariavelmente ser atribuída à própria
sociedade; que os seres humanos nasceram perfeitos e iguais, de modo que toda
divergência … é produto de ambientes divergentes (…) Tal filosofia preparou
esplendidamente a justa autodefesa de minorias violentas, como também traçou,
com delicadas mãos, as culpas e os desconcertos do violado. (Audrey, R. The
social contract: A personal enquiry into the evolutionary sources of order and
disorder, N. York: Atheneum, 1970, p. 3)
A acusação da sociedade pelas mazelas e violência dos “excluídos”
social, econômica ou ideologicamente, não importa, impõe sentimentos de culpa
na sociedade e, consequentemente, a aceitação passiva da atividade predatória
de minorias sociopáticas contra ela mesma. Estruturou-se assim uma atitude
projetiva em que defesas neuróticas e paranóicas se institucionalizam. O
fracasso dessas minorias não pode ser por culpa pessoal, mas por culpa alheia,
do sistema vigente, o qual tem a obrigação e o dever de reparar a “injustiça”
para com ele, concedendo-lhe por leis e decretos o que lhe foi negado pela sua
própria incapacidade, ensinava Alfred Adler. Já o paranóico, que também se
beneficia nessa sociedade roussoniana, adota uma postura beligerante contra a
sociedade a quem acusa de malograr seus planos ambiciosos, e parte para
atitudes francamente hostis para atingir a todo custo seus objetivos, e para
isso não hesitará em subverter a ordem constituída a seu favor, invadir e
destruir a propriedade alheia, ao mesmo tempo que quer ser declarado isento de
qualquer responsabilidade (Adler, ainda).
O resultado
é a criminalidade, a corrupção e o clientelismo insinuando-se no tecido da
sociedade, aos poucos tomando o lugar do poder e das consciências. Se as
instituições não estiverem acima dos interesses pessoais e de grupos, se
aqueles a quem coube a missão de zelar por elas não se pautarem pela elevada
tarefa de cumprir a lei, a ordem e a constituição, a democracia liberal será
uma utopia sonhada e o cidadão uma propriedade do Estado.
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