segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PARAÍSO PERDIDO OU COMO NASCEM AS UTOPIAS

PARAÍSO PERDIDO OU COMO NASCEM AS UTOPIAS
Fernando Portela Câmara

Vivemos um momento em nosso país que quebra nossa tradição liberal onde valores estranhos e totalitários são agora impostos, frequentemente por radicalismos ideológicos de personalidades incompletas, sem suficiente vivencia reflexiva sobre a natureza do ser humano e da sociedade humana. A longa tradição grega da democracia, do debate aberto disciplinado pela lógica e pela busca do consenso, da tolerância das opiniões e flexibilização da postura para evitar a radicalização e a tirania inevitável que ela impõe, são ardilosamente desconstruídos para dar lugar ao tirano travestido em libertador, pai da nação. Não faltam exemplos históricos e contemporâneos.

Vemos hoje uma América Latina controlada por utopias radicais abraçadas por personalidades cuja agenda promove o franco desafio à sociedade que julgam tê-los discriminados. Disfarçado em motes tais como “amor aos pobres” e “justiça social”, oculta-se um messianismo perverso que busca compensar o imenso narcisismo e a autoadoração que tanto buscaram em suas fantasias psicóticas. Rejeitam a “sociedade injusta”, quando na verdade escondem cuidadosamente o ódio acalentado na frustração de terem seus instintos egocêntricos  e impulsos sociopáticos reprimidos por seus educadores, na juventude. São figuras sem superego, narcísicas, que disfarçam sob o senso de justiça, o ódio por tudo e por todos que cruzam seus caminhos. Ardilosos, manipulam as massas, conhecem as fraquezas e os desejos secretos que acalentam e sugerem.

Tais personalidades não introjetam princípios éticos e morais, não assimilam valores sociais e assim desprezam a sociedade e as pessoas. Tornaram-se perversos, oportunistas, parasitas, dissimuladores, manipuladores, sabem usar a intimidação como instrumento de domínio, reconhece a fraqueza do outro e a usa em seu benefício, sabem como ninguém se colocar como vítimas, convencendo juízes e pessoas, liderando a quem escarnece.

Esse desenvolvimento se estabelece plena e irreversivelmente na adolescência. Exacerba-se naquelas personalidades que não tiveram suficiente educação e controle familiar, crescendo sem limites e por vontade própria. Sociedades libertinas ou excessivamente liberais, como a nossa, em que a punição é rejeitada como um dos vários recursos de socialização e o desprezo da autoridade social e pelos valores da lei e da ordem, são o ambiente ideal para o desenvolvimento dessas personalidades. É comum em tais sociedades atribuir atitudes e comportamentos desviantes a fatores socioeconômicos e nessa linha de pensamento criam mecanismos de afrouxamento da ordem em nome de uma inaceitável antijuricidade natural dos supostamente “vitimados por uma sociedade injusta”. Qualquer que seja o argumento, numa sociedade sadia não se isenta a responsabilidade social e penal do individuo, pois o comportamento sociopático não é doenças mentais, mas distorções no desenvolvimento do caráter. Nas sociedades doentes tais indivíduos tornam-se até mesmo objeto de admiração e de exemplo, subvertendo a índole de gerações.

Enfim, esses “salvadores da pátria” são personagens de suas fantasias narcísicas, e não raro procuram subverter a lógica aos seus próprios fins usando a persuasão longamente treinada. Aos poucos se tornam missionários da “nova verdade”, e não raro são true believers, que fazem da falácia da falsa alternativa uma bandeira ideológica: todos os argumentos que contrariam a sua verdade são falsos, e os adversários são por isso perigosos, precisam ser vigiados, ostracizados, perseguidos.

Não por coincidência, essas personalidades ao assumirem lideranças tem por prioridade ideológica a defesa e proteção de minorias violentas, sob o argumento de que a sociedade, mediante regras e restrições, impediram-nos de ter “a liberdade necessária a realização de suas livres manifestações”. Isso era emblemático na figura de Hitler, e serve de emblema a tantos tiranetes que ora pululam no mundo, simbolizado nos radicais alemães daquela época que tinham por lema Wir vom System krankgemachte Typen (“nós, a quem a Sociedade Estabelecida tornou doentes”).

Toda essa ideologia nascida da distorção tem em Russeau, seu grande ideólogo e inspirador. Que La nature a fait l´homme heureux et bon, mais que La société le deprave et le rend misérable, eis o libelo revolucionário que emoldura sua obra Émile. Do sucesso dessa sociologia, elevada às alturas pelos revolucionários franceses, nasceu o brado retumbante que deu à sociopatia seu status utilitário, “todos nós nascemos bons e felizes, mas se sou mau e perverso a culpa é da sociedade que me fez assim”. Eis a desculpa repetida pelos psicopatas e oportunistas aos quatro ventos, peritos que são em culpar a tudo e a todos pelos seus maus atos, pois a deficiência moral os impede de assumirem qualquer responsabilidade. Robert Audrey pontuou bem essa distorção perpetuada como jargão de políticas “revolucionárias” ao identificar nesse pensamento estatizado o início da Era do Álibi:

Demonstrando maior simpatia pelo violador que pelo violado, preparou-nos com elegância para a máxima ruína na medida em que nos deparemos com um futuro de máxima desordem social. Uma filosofia que … nos induziu a crer que toda falta humana deve repousar sobre ombros alheios; que a responsabilidade por todo comportamento nocivo à sociedade deve invariavelmente ser atribuída à própria sociedade; que os seres humanos nasceram perfeitos e iguais, de modo que toda divergência … é produto de ambientes divergentes (…) Tal filosofia preparou esplendidamente a justa autodefesa de minorias violentas, como também traçou, com delicadas mãos, as culpas e os desconcertos do violado. (Audrey, R. The social contract: A personal enquiry into the evolutionary sources of order and disorder, N. York: Atheneum, 1970, p. 3)

A acusação da sociedade pelas mazelas e violência dos “excluídos” social, econômica ou ideologicamente, não importa, impõe sentimentos de culpa na sociedade e, consequentemente, a aceitação passiva da atividade predatória de minorias sociopáticas contra ela mesma. Estruturou-se assim uma atitude projetiva em que defesas neuróticas e paranóicas se institucionalizam. O fracasso dessas minorias não pode ser por culpa pessoal, mas por culpa alheia, do sistema vigente, o qual tem a obrigação e o dever de reparar a “injustiça” para com ele, concedendo-lhe por leis e decretos o que lhe foi negado pela sua própria incapacidade, ensinava Alfred Adler. Já o paranóico, que também se beneficia nessa sociedade roussoniana, adota uma postura beligerante contra a sociedade a quem acusa de malograr seus planos ambiciosos, e parte para atitudes francamente hostis para atingir a todo custo seus objetivos, e para isso não hesitará em subverter a ordem constituída a seu favor, invadir e destruir a propriedade alheia, ao mesmo tempo que quer ser declarado isento de qualquer responsabilidade (Adler, ainda).


O resultado é a criminalidade, a corrupção e o clientelismo insinuando-se no tecido da sociedade, aos poucos tomando o lugar do poder e das consciências. Se as instituições não estiverem acima dos interesses pessoais e de grupos, se aqueles a quem coube a missão de zelar por elas não se pautarem pela elevada tarefa de cumprir a lei, a ordem e a constituição, a democracia liberal será uma utopia sonhada e o cidadão uma propriedade do Estado.

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