PARAÍSO PERDIDO OU COMO NASCEM AS UTOPIAS
Fernando Portela Câmara
Vivemos um momento em nosso país que quebra nossa tradição
liberal onde valores estranhos e totalitários são agora impostos,
frequentemente por radicalismos ideológicos de personalidades incompletas, sem
suficiente vivencia reflexiva sobre a natureza do ser humano e da sociedade
humana. A longa tradição grega da democracia, do debate aberto disciplinado
pela lógica e pela busca do consenso, da tolerância das opiniões e
flexibilização da postura para evitar a radicalização e a tirania inevitável
que ela impõe, são ardilosamente desconstruídos para dar lugar ao tirano
travestido em libertador, pai da nação. Não faltam exemplos históricos e contemporâneos.
Vemos hoje uma América Latina controlada por utopias radicais
abraçadas por personalidades cuja agenda promove o franco desafio à sociedade
que julgam tê-los discriminados. Disfarçado em motes tais como “amor aos
pobres” e “justiça social”, oculta-se um messianismo perverso que busca
compensar o imenso narcisismo e a autoadoração que tanto buscaram em suas
fantasias psicóticas. Rejeitam a “sociedade injusta”, quando na verdade
escondem cuidadosamente o ódio acalentado na frustração de terem seus instintos
egocêntricos e impulsos sociopáticos reprimidos
por seus educadores, na juventude. São figuras sem superego, narcísicas, que
disfarçam sob o senso de justiça, o ódio por tudo e por todos que cruzam seus
caminhos. Ardilosos, manipulam as massas, conhecem as fraquezas e os desejos
secretos que acalentam e sugerem.
Tais personalidades não introjetam princípios éticos e
morais, não assimilam valores sociais e assim desprezam a sociedade e as
pessoas. Tornaram-se perversos, oportunistas, parasitas, dissimuladores,
manipuladores, sabem usar a intimidação como instrumento de domínio, reconhece
a fraqueza do outro e a usa em seu benefício, sabem como ninguém se colocar
como vítimas, convencendo juízes e pessoas, liderando a quem escarnece.
Esse desenvolvimento se estabelece plena e irreversivelmente
na adolescência. Exacerba-se naquelas personalidades que não tiveram suficiente
educação e controle familiar, crescendo sem limites e por vontade própria.
Sociedades libertinas ou excessivamente liberais, como a nossa, em que a
punição é rejeitada como um dos vários recursos de socialização e o desprezo da
autoridade social e pelos valores da lei e da ordem, são o ambiente ideal para
o desenvolvimento dessas personalidades. É comum em tais sociedades atribuir atitudes
e comportamentos desviantes a fatores socioeconômicos e nessa linha de
pensamento criam mecanismos de afrouxamento da ordem em nome de uma inaceitável
antijuricidade natural dos supostamente “vitimados por uma sociedade injusta”.
Qualquer que seja o argumento, numa sociedade sadia não se isenta a
responsabilidade social e penal do individuo, pois o comportamento sociopático
não é doenças mentais, mas distorções no desenvolvimento do caráter. Nas
sociedades doentes tais indivíduos tornam-se até mesmo objeto de admiração e de
exemplo, subvertendo a índole de gerações.
Enfim, esses “salvadores da pátria” são personagens de suas
fantasias narcísicas, e não raro procuram subverter a lógica aos seus próprios
fins usando a persuasão longamente treinada. Aos poucos se tornam missionários
da “nova verdade”, e não raro são true
believers, que fazem da falácia da falsa alternativa uma bandeira
ideológica: todos os argumentos que contrariam a sua verdade são falsos, e os
adversários são por isso perigosos, precisam ser vigiados, ostracizados,
perseguidos.
Não por coincidência, essas personalidades ao assumirem
lideranças tem por prioridade ideológica a defesa e proteção de minorias
violentas, sob o argumento de que a sociedade, mediante regras e restrições,
impediram-nos de ter “a liberdade necessária a realização de suas livres
manifestações”. Isso era emblemático na figura de Hitler, e serve de emblema a
tantos tiranetes que ora pululam no mundo, simbolizado nos radicais alemães
daquela época que tinham por lema Wir vom
System krankgemachte Typen (“nós, a quem a Sociedade Estabelecida tornou
doentes”).
Toda essa ideologia nascida da distorção tem em Russeau, seu
grande ideólogo e inspirador. Que La
nature a fait l´homme heureux et bon, mais que La société le deprave et le rend
misérable, eis o libelo revolucionário que emoldura sua obra Émile. Do sucesso dessa sociologia,
elevada às alturas pelos revolucionários franceses, nasceu o brado retumbante
que deu à sociopatia seu status utilitário, “todos nós nascemos bons e felizes,
mas se sou mau e perverso a culpa é da sociedade que me fez assim”. Eis a
desculpa repetida pelos psicopatas e oportunistas aos quatro ventos, peritos
que são em culpar a tudo e a todos pelos seus maus atos, pois a deficiência
moral os impede de assumirem qualquer responsabilidade. Robert Audrey pontuou
bem essa distorção perpetuada como jargão de políticas “revolucionárias” ao
identificar nesse pensamento estatizado o início da Era do Álibi:
Demonstrando maior simpatia pelo violador que pelo violado, preparou-nos
com elegância para a máxima ruína na medida em que nos deparemos com um futuro
de máxima desordem social. Uma filosofia que … nos induziu a crer que toda
falta humana deve repousar sobre ombros alheios; que a responsabilidade por todo
comportamento nocivo à sociedade deve invariavelmente ser atribuída à própria
sociedade; que os seres humanos nasceram perfeitos e iguais, de modo que toda
divergência … é produto de ambientes divergentes (…) Tal filosofia preparou
esplendidamente a justa autodefesa de minorias violentas, como também traçou,
com delicadas mãos, as culpas e os desconcertos do violado. (Audrey, R. The
social contract: A personal enquiry into the evolutionary sources of order and
disorder, N. York: Atheneum, 1970, p. 3)
A acusação da sociedade pelas mazelas e violência dos “excluídos”
social, econômica ou ideologicamente, não importa, impõe sentimentos de culpa
na sociedade e, consequentemente, a aceitação passiva da atividade predatória
de minorias sociopáticas contra ela mesma. Estruturou-se assim uma atitude
projetiva em que defesas neuróticas e paranóicas se institucionalizam. O
fracasso dessas minorias não pode ser por culpa pessoal, mas por culpa alheia,
do sistema vigente, o qual tem a obrigação e o dever de reparar a “injustiça”
para com ele, concedendo-lhe por leis e decretos o que lhe foi negado pela sua
própria incapacidade, ensinava Alfred Adler. Já o paranóico, que também se
beneficia nessa sociedade roussoniana, adota uma postura beligerante contra a
sociedade a quem acusa de malograr seus planos ambiciosos, e parte para
atitudes francamente hostis para atingir a todo custo seus objetivos, e para
isso não hesitará em subverter a ordem constituída a seu favor, invadir e
destruir a propriedade alheia, ao mesmo tempo que quer ser declarado isento de
qualquer responsabilidade (Adler, ainda).
O resultado
é a criminalidade, a corrupção e o clientelismo insinuando-se no tecido da
sociedade, aos poucos tomando o lugar do poder e das consciências. Se as
instituições não estiverem acima dos interesses pessoais e de grupos, se
aqueles a quem coube a missão de zelar por elas não se pautarem pela elevada
tarefa de cumprir a lei, a ordem e a constituição, a democracia liberal será
uma utopia sonhada e o cidadão uma propriedade do Estado.
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